- Laura tem 33 Anos, e Professora de Historia e Desquitada. um Dia, Resolve Escrever um Diario. o Diario Torna-se, Mais que um Registro, um Canal Para Laura se Revelar e se Conhecer.
- Editora: Scipione
- Autor: FANNY ABRAMOVISCH
- Origem: Nacional
- Ano: 2003
- Edição: 7
- Número de páginas: 96
- Acabamento: Brochura
- Fonte:http://www.submarino.com.br/produto/1/54961/que+raio+de+professora+sou+eu#A1
Que raio de professora sou eu?
Fanny Abramovich
(...)
Fui chamada pela coordenadora. Intimação urgente. Corri para a sua sala. Mal me cumprimentou. Formal, rígida, dura. Perguntou sobre minhas aulas. No melhor estilo de uma arguição oral. Me senti como uma aluna sendo examinada. Tremendo nas bases. Perguntou sobre a verificação dos questionários e exercícios. Respondi que trabalho com perguntas abertas. Nada de apontar o "verdadeiro" e o "falso".
Fechou a cara. Quis saber como avalio o uso dos conceitos. Disse que tinha minhas dúvidas sobre a correção de certos conceitos. Olhou a sua ficha. Devagar. Fui ficando nervosa. Ela testando a minha resistência. Olhei. Desviou o olhar. Fiquei sem ar. A pausa continuou. Por séculos. Interminável.
Falou. Que não tinha gostado do meu relatório. Nada mesmo. Que vários pais já tinham reclamado. Dado queixas sobre minhas aulas. E mais. Tínhamos um método comum de avaliação. Pra ser seguido a respeitado. Passo a passo. Item por item.
Esbravejei. Disse que não concordava com o método imposto pela escola e que não estava gostando de sua cobrança. Que viesse ver o que acontecia com meus alunos. Com seus próprios e sábios olhos e boca. Conferisse no real. Nas salas. Podíamos discutir meus critérios quando quisesse. Mas sem prévios julgamentos apoiados em fofocas e na ignorância de pais que acham que História é uma sucessão de datas e nomes empolados.
Ficou fula. Fiquei fula. Me dispensou. Anotou coisas em sua preciosa ficha. Provavelmente horrores sobre a minha pessoa e a minha pedagogia. Saí batendo a porta. Rodando a baiana. Respirei fundo. Fui me acalmando.
Entrei na classe. 0 primeiro aluno que fez uma gracinha foi convidado a responder a uma arguição oral. Na hora. Me olhou com ódio. Respondeu tudo. Dei nota bem mais baixa do que merecia.
Saí da escola abobalhada. Comigo. Com minhas dificuldades com a autoridade: Não a aceito quando vem em cima de mim. E descarrego nos alunos. Igualzinho. De cima pra baixo. Sem pensar. Só pra me afirmar. Ela ameaçou me suspender, despedir... Eu ameacei reprovar, pôr pra recuperação. Eu fechei a cara pra ela a me defendi. Sabendo dos meus objetivos pedagógicos. 0 aluno fechou a cara pra mim e se defendeu. Sabendo a matéria. Igualzinho. Em degraus da escada. Que vergonha... Repetir comportamentos absurdos como forma de afirmação. Como vingança. Descontando num guri de doze anos. Que raio de professora eu sou???
Vou ter que pensar em tudo isso. Muito bem pensado.
Preciso aprender a me abrir pra uma discussão. Não ir jogando pedras em quem me questiona. E pior. Não pelo questionamento em si. Muito mais pelo posto do perguntador, que faz com que o veja como juiz da Santa Inquisição. E eu, como ré. Ridículo.
Poderia ter falado com a coordenadora. Nem tentei. Não expliquei nada. Só disputei no braço-de-ferro. E perdi as duas brigas. Com ela e com o aluno. Pra mim, na minha autoavaliação, estou reprovada.
(...)
Estou contente! Vibrando!!
Aula pra 5ª série A. Uma turma que morre de sono. Acham tudo chatíssimo. Velharias dispensáveis. Estávamos nas tentativas de independência do Brasil. Chegamos à Inconfidência Mineira. Crente que não ia dar pano pra manga. Que ia ser aquela mesmice. Paradeza bocejante. Surpresa total!! Acordaram!! Sacaram lances geniais. Relação da Inconfidência com o presente e o passado recente do nosso país. A derrama e os impostos atuais, as perseguições aos intelectuais. Puxei a corda sem parar. Foram longe e fundo. Os olhos arregalados, as caras pedindo mais... Vão ter, ora se... Continuo na próxima aula e se precisar, pego mais outra. Parece que Tiradentes tocou no nervo certo. Nada como um dentista...
Uma aula que me deu um prazer que não sentia há um tempão. Fiquei de bem com a turma. Esperançosa. Sentindo uma gostosura boa. É tão estimulante quando eles se interessam...
Editora Scipione, 2002

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